Vinícius Pinheiro - AE
Há alguns anos, a indústria de fundos de investimento viveu uma febre que atende pelo nome de “long short”, ou “comprado e vendido”, em uma tradução livre do jargão de mercado. Trata-se de uma categoria de fundos que aplicam em diversos mercados e que prometem ser imunes a crises.Em pouco tempo, houve um intenso fluxo de recursos para esses fundos, a ponto de a maior parte deles não aceitar novos aplicadores. Atualmente, a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), que auto-regula o setor, registra 91 produtos desse tipo.
Depois de um excelente começo, o desempenho dos long short começou a minguar em conseqüência do agravamento da crise nos mercados financeiros internacionais. O resultado frustrou os investidores, que interpretaram as perdas como um sinal de que os fundos não cumpriram o prometido.
No acumulado deste ano até o dia 15 de abril, os long short registraram resgates de R$ 2,5 bilhões, o equivalente a quase 25% do patrimônio líquido – atualmente de R$ 7 bilhões. No período, esses fundos perderam, em média, 0,56% e, nos últimos 12 meses, o rendimento é de apenas 6,44%. Se o mesmo investidor tivesse aplicado o dinheiro em um fundo DI, considerado a opção mais conservadora de investimento, teria conseguido uma rentabilidade de 11% em 12 meses.
Como funcionam os long short
Existem várias estratégias possíveis para os fundos long short, mas o princípio de todos é basicamente o mesmo: ao contrário do que muitos acreditam, nem todas as informações disponíveis sobre uma ação ou um ativo financeiro estão refletidas nos preços. Diante dessa premissa, o gestor de recursos tenta identificar o que os outros investidores não viram e ganhar dinheiro a partir dessas distorções.
Na prática mais conhecida, o gestor compra uma ação que ele acha que vai subir e vende outra que ele acha que vai cair, ou apresentar um desempenho pior do que a primeira, em um determinado período. Assim, mesmo que os dois papéis caiam – caso haja, por exemplo, uma crise no mercado – o fundo registrará ganhos, desde que a aposta do gestor se mostre correta e a queda da ação que ele comprou for menor do que a que ele vendeu.
O mais comum é que as apostas se concentrem em ações de um mesmo setor ou entre papéis ordinários (ON) e preferenciais (PN) de uma mesma empresa. Mas também é possível que o gestor aposte em um alta de preço a longo prazo e compre ações – o mercado chama essa estratégia de “comprada” ou “long” – e, ao mesmo tempo, aposte na queda de preços – “vendido” ou “short” – em contratos de Ibovespa futuro, negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). Para ser considerado um “long short puro”, a posição do fundo precisa ser neutra, ou seja, o valor comprado precisa ser exatamente o mesmo que o vendido.
O que deu errado
Na análise do diretor da empresa de gestão de recursos Modal Asset Management, Alexandre Póvoa, o primeiro erro dos long short foi justamente não se manterem neutros. Ou seja, a maior parte dos gestores optou por adotar uma posição comprada maior do que a vendida, ou vice-versa. “Desta forma, os fundos ficaram tão sujeitos à oscilação de mercado quanto qualquer fundo considerado arriscado”, diz.
A segunda razão para as perdas foi um erro na avaliação do cenário, logo no início da crise, em agosto do ano passado. Com a possibilidade de desaceleração da economia mundial, esperava-se que as ações de empresas como Petrobras e Vale – produtoras de matérias-primas (commodities) seriam as mais atingidas. Enquanto isso, as companhias com menor negociação na Bolsa, mais ligadas aos fundamentos da economia interna, apresentariam melhor resultado.
Pensando nisso, muitos fundos long short compraram Vale e Petrobras e venderam Ibovespa futuro, já que essas ações possuem forte peso no índice da bolsa brasileira. “Aconteceu exatamente contrário, os dois papéis praticamente dobraram de valor enquanto as ações menos negociadas registraram queda”, lembra Póvoa. Esse erro pode ser explicado pelo comportamento do investidor estrangeiro, que fugiu das ações com menor liquidez por conta da crise nos mercados, explica o gestor da Arsenal Investimentos, Leopoldo Barreto Junior. “Outra aposta de compra dos long short foram as empresas que fizeram ofertas de ações (IPOs) recentemente, que também acabaram afetadas pela saída dos estrangeiros”, completa.
O mau resultado dos long short acabou criando um círculo vicioso, já que os saques solicitados pelos investidores obrigaram os gestores a venderem os papéis, o que levou a novas perdas.
Perspectivas
Os especialistas avaliam ser difícil prever quando os fundos voltarão a apresentar bom desempenho. “Se antes havia fila para investir em long short e poucas oportunidades de mercado, com a queda das ações as oportunidades se multiplicaram, mas agora os fundos só recebem ordens de resgate”, diz Barreto. Ele também atribui a decepção com os long short ao comportamento do investidor, atraído apenas pelo desempenho passado da aplicação, mas sem conhecer a natureza do investimento. O gestor da Arsenal recomenda atualmente uma pequena alocação nesse tipo de fundo, de no máximo 10% do capital para quem tem prazo de investimento de dois anos, por conta da incerteza que ainda paira nos mercados. Ou seja, quem aplicou uma parcela maior da poupança neste tipo de fundo deveria, segundo ele, rever o investimento.
Já o diretor da Modal Asset sugere ao investidor que pretende aplicar em long short pelo menos três passos: 1) conhecer melhor o produto e saber se o fundo adota uma posição neutra; 2) obter informações sobre o gestor e pesquisar bem os fundos disponíveis no mercado; 3) ter paciência, pois em muitos casos a estratégia do gestor leva tempo para se concretizar.



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