segunda-feira, 14 de abril de 2008

Investidores dão adeus aos fundos e garantem: investir por conta própria compensa

Assumir o controle total sobre a gestão dos investimentos não é uma tarefa simples e exige disciplina, dizem os especialistas

Vinícius Pinheiro - AE

O servidor público Toni Ricardo Eugênio dos Santos, de 37 anos, foi um típico aplicador de fundos de investimento durante quatro anos. Até ouvir falar, por indicação de amigos, do Tesouro Direto – programa que permite a negociação de títulos públicos via internet – e perceber que a compra de papéis do governo sem intermediários lhe garantia uma melhor rentabilidade. “Foi só então que percebi o peso da taxa de administração dos fundos e decidi sacar todos os meus recursos”, afirma.

Assim como Santos, assumir as rédeas das aplicações e se livrar das instituições que realizam esse trabalho – e costumam cobrar caro por ele – tem sido a opção de um número crescente de investidores.

Especialistas atribuem o fenômeno à facilidade e ao maior acesso a informações sobre mercado financeiro proporcionadas pela rede mundial de computadores. Afinal, hoje é possível fazer praticamente qualquer tipo de aplicação e acompanhar o sobe-e-desce das aplicações sem sair de casa. A estabilidade econômica conquistada pelo País é outro fator que contribui para que as pessoas decidam buscar outras maneiras de administrar sua poupança.

Além dos custos elevados, Santos reclama da falta de transparência dos fundos. “Por mais que se tente, é difícil saber como eles aplicam os recursos.” Desde que deu adeus aos fundos, o servidor público diversificou sua carteira, sempre por conta própria. No mercado de ações, por exemplo, optou por investir em cotas do PIBB (Papéis de Índice Brasil Bovespa), fundo que acompanha a variação do IBrX-50, índice formado pelas 50 ações mais negociadas no mercado e que pode ser adquirido diretamente em corretoras.

Recentemente, o investidor revela ter voltado a recorrer aos bancos, mas não para investir em fundos. “Obtive uma taxa muito boa no CDB pós-fixado (que acompanha a variação dos juros), melhor até do que as condições do Tesouro Direto”, conta.

Precauções

Por mais que pareça tentador, assumir o controle total sobre a gestão dos investimentos não é uma tarefa simples. De acordo com o consultor financeiro Silvio Paixão, quem deseja encarar essa missão precisa cumprir ao menos três requisitos: ter tempo disponível, gostar do assunto e dispor de uma boa quantidade de recursos. “O interessado precisa saber se o dinheiro que ele vai economizar com as taxas dos fundos vai compensar o tempo que ele precisará investir nesse trabalho”, orienta.

Para o administrador de empresas Anderson Balestra, de 26 anos, o “divórcio” dos fundos valeu a pena. Em agosto do ano passado – no momento crítico da crise financeira internacional – ele decidiu se aventurar por conta própria no mercado de ações. E garante que não se arrependeu. “Tive resultados muito positivos, não só do lado financeiro, como também pelo conhecimento que adquiri nesse tempo”, afirma.

Balestra diz que ainda mantém uma pequena quantidade de dinheiro aplicada em fundos. Apesar de ter optado por entrar no mercado em um momento de grande oscilação e incerteza, ele afirma que a comparação entre as duas carteiras é favorável a ele.

O investidor confirma que montar a carteira de investimentos sem intermediários representa custos menores em relação à aplicação via fundos. Mas reconhece que essa economia não é gratuita. O administrador conta que gasta duas horas por dia na análise das ações e na leitura de notícias que podem balizar suas decisões de investimento.

Pensando nisso, o consultor Silvio Paixão sugere aos investidores uma comparação da capacidade de quem faz a gestão com os resultados apresentados. “Não basta olhar para a taxa de administração, pois um fundo com cobrança maior pode ter um retorno melhor graças ao trabalho do gestor especializado”, explica.

Não é à toa que o Brasil possui hoje quase 11 milhões de cotistas de fundos, segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). “Para a maior parte das pessoas, não basta olhar os custos na hora de investir”, observa. Ele diz que a escolha da melhor forma de aplicar deve ser semelhante à de um plano de saúde. “Ou você faria uma operação no coração pelo sistema público de saúde só porque é mais barato?”, questiona.

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