Vinicius Pinheiro - AE
A possibilidade de o Banco Central dar início a um ciclo de aumento da taxa básica de juros, a Selic, na reunião marcada para hoje, é dada como certa pelo mercado financeiro. A perspectiva é que a taxa de juros suba 0,25 ponto porcentual, para 11,5%. Se confirmado, será o primeiro aumento em três anos. A alta seria uma resposta do Banco Central ao aumento das perspectivas de inflação, não só para este ano, como também para o ano que vem. Esse cenário de aceleração inflacionária e de maiores taxas de juros, de forma geral, é negativo para os investimentos em Bolsa.
Especialistas consultados pelo portal AE Investimentos apontam diferentes modos de avaliar as perspectivas para o mercado de ações. Para o analista de empresas da Concórdia, Eduardo Kondo, não vale a pena tomar uma decisão de investimento apenas com base na provável alta dos juros. Para ele, os juros devem subir, mas não devem continuar em patamar elevado por muito tempo. Neste contexto, as ações brasileiras continuariam a ser mais influenciadas, no curto prazo, pelo desdobramento da crise nos Estados Unidos.
Mesmo diante da perspectiva de um possível cenário externo adverso, o profissional recomenda ao investidor papéis de empresas consideradas competitivas do ponto de vista internacional. No caso da Bovespa, ele aponta companhias do setor de matérias-primas (commodities), como Petrobras e Vale, siderúrgicas, como Usiminas e CSN, e produtoras de papel e celulose Aracruz e Votorantim Celulose e Papel.
Se a alta da taxa Selic subir e continuar em um patamar mais elevado por um período maior de tempo, Kondo considera que os setores mais afetados negativamente, em um primeiro momento, serão os de construção civil e consumo. “Os resultados dessas empresas dependem diretamente do crédito concedido aos consumidores, que poderá ser afetado caso os juros altos”, explica.
Bancos ganham
Para o economista-chefe da Corretora Souza Barros, Clodoir Gabriel Vieira, a alta dos juros durante um momento delicado para o mercado financeiro é uma má notícia para a Bolsa como um todo. Ele acredita que apenas os bancos teriam condições de obter ganhos em uma situação de aperto monetário mais forte.
A Souza Barros possui recomendação de compra para as ações de Unibanco e Banco do Brasil. Na avaliação da corretora, os dois bancos apresentam cotações mais atrativas neste momento. “Mas os papéis das principais instituições financeiras do País são uma boa opção de investimento para quem tem foco no longo prazo, independentemente da taxa de juros”, observa. Vieira também aponta as empresas do setor de consumo e de varejo como as principais atingidas pelo processo de elevação dos juros.
Antecipando a queda
Na visão do chefe da área de análises da Link Investimentos, Celso Boin Junior, apesar de a alta da Selic não ser boa para a Bolsa, a expectativa é de que o processo não seja duradouro. “Além disso, a elevação não deve ser suficiente para comprometer o desempenho das empresas”, diz.
Agora, o analista enxerga uma oportunidade de compra para esses papéis. “Pode parecer um contra-senso, já que a alta dos juros afeta as empresas de varejo, mas os preços das ações do setor se mostram atrativos para quem deseja se antecipar a uma futura queda dos juros”, destaca.
Entre os papéis que mais devem se beneficiar, segundo analistas, são os setores importadores e algumas ações sugeridas são Positivo Informática, do setor de tecnologia, Fras-le, Marcopolo e Randon, que são produtoras de material rodoviário, e Coteminas, fabricante de fios e tecidos. Todas possuem parte relevante dos seus resultados atrelados a importação de produtos.
"A valorização do real frente ao dólar deve continuar mesmo que o Copom mantenha o juro estável”, diz o analista da corretora Omar Camargo, Luiz Augusto Pacheco.
A expectativa de valorização dos papéis de Positivo Informática é de 40% até o final do ano. “A empresa importa principalmente componentes eletrônicos e apenas monta seus produtos no Brasil”, explica Pacheco. Já a alta esperada para Fras-le, Marcopolo e Randon é de 23%, 44% e 46%, repectivamente.
Há ainda ações de empresas, que apesar de não possuírem grande participação de importados em suas vendas, também devem beneficiar-se da possível alta do real, como é o caso da fabricante de fios e tecidos, Coteminas, cuja expectativa é de ganho de 63% até dezembro. “A Coteminas não possui grande participação de importados em suas vendas, mas ela importa muito maquinário para sua produção e deve ter redução de custos”, explica o analista da Win, home borker da Alpes Corretora, Fausto Gouveia.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
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