Wellington Miyazaki - AE
Para ganhar dinheiro no mercado financeiro, principalmente no curto prazo, não basta ser informado e disciplinado. É preciso ser meio visionário para conseguir descobrir o momento certo de comprar ou de vender e ter muito sangue-frio. “O pulo do gato para ganhar é acertar o timing, manter a calma e olhar para os indicadores que realmente importam”, ensina o diretor-executivo de Fundos de Investimentos do Banco WestLB do Brasil, Aristides Jannini.
De forma geral, a busca por esse momento mágico e a elaboração de estratégias de longo prazo exigem que a rotina de um gestor de fundo tradicional comece bem cedo: muitos estão desde as 7 horas da manhã a postos para analisar em detalhes o cenário para o dia, fazer projeções, discutir novas estratégias e, por fim, decidir onde aplicar os recursos que administram.
Há, no entanto, um grupo de fundos administrados de forma completamente distinta, mas com noção de tempo perfeita, ausência total de emoções e alto poder de concentração. Parece trabalho para um computador – e, em alguns casos, é mesmo.
O surgimento desses fundos no exterior começou em meados da década de 90 e até virou moda a contratação de físicos, astrofísicos, matemáticos e até mesmo meteorologistas pelas instituições financeiras. A idéia era dar um passo além da análise gráfica, estratégia que acompanha apenas a oscilação de preços para determinar o momento correto de negociar.
Desde então, as ferramentas se sofisticaram. Atualmente, envolvem modelos estatísticos intrincados e até redes neurais – sistemas computacionais capazes de aprender pelo erro e pelo exemplo, um passo em direção à (ainda distante) inteligência artificial. A meta é estabelecer as prováveis oscilações dos preços dos ativos, a relação entre as cotações e as tendências para diversos mercados.
A nova realidade criou um tipo de estratégia de gestão de carteiras de investimentos chamada de quantitativa. Aqui no Brasil, a baixa liquidez de cada mercado, no entanto, a torna viável principalmente para fundos multimercados, aqueles que direcionam recursos para diversos tipos de aplicações.
Dia-a-dia
Nesses fundos quantitativos, o sistema consegue, em questão de segundos, analisar o retorno da ação em relação ao risco e determinar se vale a pena comprar ou não. Essa análise é baseada num modelo matemático e cada gestor adota um modelo próprio, guardado a sete chaves. Se o sistema decide por compra, por exemplo, o próprio software dá a ordem de investimento e aplica.
O gestor? Para o leigo, pode parecer muito simples ou ainda criar a impressão de que a máquina é quem decide, mas a vida do gestor desse tipo de fundo não é nada fácil. Diante de uma série de indicadores, que em certas ocasiões influenciam fortemente os preços e em outras nem são observados por analistas e investidores, é difícil achar qual fator terá impacto no mercado financeiro no curto, médio ou longo prazo. É preciso descobrir quais dados são relevantes, quais serão usados na tomada de decisão, qual a relação entre eles e atribuir-lhes o peso adequado, conta Jannini.
Num país de surpresas
Alguns especialistas defendem como grande vantagem dessa estratégia a capacidade de expurgar a subjetividade da decisão de investimento, mas ela tem outros pontos positivos. Primeiro, estratégias quantitativas criam um diferencial de gestão, já que os mercados tendem a olhar para os mesmos parâmetros, mesmo diante de um cenário de queda de prêmios de risco e, conseqüentemente, de queda da volatilidade. Segundo, esses fundos são capazes de acompanhar milhares de ativos em diversos mercados ao mesmo tempo, algo humanamente impossível. E, terceiro, esses fundos teriam, pelo menos na teoria, uma análise mais acurada do risco.
“O investimento é mais exato, pois não recebe interferência de boato ou de especulação e baseia-se na relação risco-retorno”, explica o diretor geral da empresa de análise quantitativa, Phynance, Fábio Bretas.
O perigo está no fato de o modelo ignorar eventos-surpresa, o que aconteceu nesta semana com as ações da Petrobras, após o anúncio de uma possível descoberta de um novo megacampo de petróleo. Os computadores não assimilam esses eventos e somente dias depois recomendam compra ou venda. Ou seja, tarde demais.
No Brasil, esse tipo de análise, feita pelo computador, está apenas começando. Hoje, o mercado conta com 12 fundos de investimento no Brasil que utilizam programas de computador para determinar onde investir e seus ativos somam R$ 350 milhões, um tamanho pequeno para uma indústria que supera R$ 1 trilhão.
Bons retornos
Apesar da instabilidade da Bolsa nos últimos meses, a maioria dos fundos quantitativos está com rentabilidade acima dos seus índices de referência no ano. O Polo Latitude 84 FI ações, por exemplo, apresenta rentabilidade de 6,34% em 2008 contra ganho de 0,43% da Bovespa no mesmo período. “O fundo é recomendado apenas para quem tem calma durante períodos voláteis”, diz a responsável pela área de Relações com Investidores da Polo Capital Management, Dara Chapman.
Nesse quesito, os gestores do fundo quantitativo da Principia, o Principia Hedge Plus FI Multimercado são PhD. “Nosso patrimônio chegou a cair pela metade recentemente”, conta o sócio da Principia Capital Management, Denis Lee. “E muitos investidores sacaram os recursos”, lembra. Apesar disso, o fundo multimercado do Principia mantém a performance acima do CDI, com alta de quase 5% em 2008.
Em geral, os fundos quantitativos estão melhores do que a média dos fundos tradicionais do mercado. Pelos dados da Anbid, que reúne a indústria de fundos de investimento, os fundos de ações apresentam queda de 1,27% no ano e os multimercados registram alta de 2,06%.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
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